sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Glosa 9, ou a obesidade e a rasura


Olhando, despreocupadamente, para as estantes da minha biblioteca observo que, no linear da ficção portuguesa, o maior volume de lombada pertence a Os Maias, de Eça de Queiroz. Na ficção estrangeira, a maior largura cabe a Guerra e Paz, de Tolstoi, indiscutivelmente, bem mais extenso do que o romance de Eça.
O jornal Le Monde (15/9/2017) dedica ao tema dos livros-tijolos, um artigo de Éric  Loret, a propósito da reentrada de Outubro, em que as editoras anunciam, para a nova temporada, romances de 700, 900, e mesmo um recordista, Alan Moore, com as 1.264 páginas, com o seu romance Jérusalem
O suplemento literário do jornal francês admite que, na prática, os romances e obras de ficção têm vindo a crescer, na Europa. E que essa extensão se poderá dever à escrita em computador, que permite rasurar, com facilidade, e emendar sem trabalho os originais dos autores, sem o penoso sacrifício antigo da reescrita.
Por outro lado, ao ver nos transportes públicos estes calhamaços imensos a serem lidos por tantos leitores, pergunto-me se estas leituras não serão feitas com leviana sub-atenção. À tona. Mecanicamente, como quem reza e, simultaneamente, vai pensando noutras coisas... Numa ligeireza a que muitas dessas obras se prestam.

Moritz Moszkowski / Jorge Bolet : "No Outono"


quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Dos mínimos


Nunca me incomodou comer num restaurante atascado, desde que tivesse boa cozinha e o serviço fosse conveniente. Como também nunca realcei excessivamente as refeições tomadas em restaurantes de luxo, se também cumprissem esse desiderato, com a qualidade correspondente à sua categoria.
Nunca fui grande entusiasta da minimalista nouvelle cuisine que, no entanto, do ponto de vista estético, dá boas imagens em hebdomadários e revistas finas da especialidade. E faz a glória efémera de alguns chefs muito celebrados. Mas também nunca procurei restaurantes farta-brutos, para saciar a minha gula. No meio, acho que está a virtude. E se durante alguns anos, por motivos profissionais, me tive que habituar ao come-em-pé, infelizmente, não tenho porém qualquer problema - como muito boa gente tem - em comer sozinho. Saboreio melhor, talvez, e vou pensando, entretanto...
Não gosto de pouco espaço entre mesas. Não gosto de pedir o sal duas vezes. Lembro-me sempre que um prato que conste da ementa do dia, não deve demorar mais do que 20 minutos a chegar à mesa. E que um restaurante, minimamente competente, deve ter um empregado para cada 7 mesas. Ora, isto, até em alguns restaurantes ambiciosos é, muitas vezes, esquecido. Será em nome da tal produtividade?

Citações CCCXXVI


"...comer uvas é como beber vinho em pílulas."

João Portugal Ramos (produtor e enólogo), à revista Visão (24/8/17).

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

As palavras do dia (31)


Francisco Louçã (1956), no jornal Público de hoje, chama-lhes "gerigonçólogos", eu preferia chamar-lhes: minudentes, ou qualquer coisa assim parecida.
São jornalistas e comentadores que, pouco ou nada tendo a dizer, se prendem a aspectos formais, secundários e decorativos, para ornamentar as suas palestras vazias, em jornais e televisões. Conheço vários.
Iria jurar que nasceram e se fizeram homenzinhos durante o consulado cavaquista. Começaram a desenvolver-se interpretando, quais adivinhos ou pitonisas, uns discursos presidenciais que não tinham nada para interpretar, porque eram de uma chateza lhana e total. Assim cresceram eles, os minudentes jornalistas e comentadores da nossa praça...
Vou transcrever uma pequena parte do texto de Louçã, mas aconselho a sua leitura integral, porque é uma das crónicas mais bem esgalhadas deste nosso político e conselheiro de Estado. Aqui vai, então:

...Calhou-nos portanto a sorte de ter de viver com esta casta especial, especializadíssima, que é dos peritos em decifrar o tom de voz, a catadura, a posição da mão, o andar, a cor da roupa e até, em desespero de causa, a palavra desta gente que arrombou a porta do palácio. São os "geringonçólogos". ...

Das pequenas alegrias


Há livros que trazem em si um encanto próprio. Estive para escrever: fascínio. Alguns pelo seu intenso conteúdo que nos absorve e conquista. Outros, pela forma delicada como foram tratados pelos seus donos anteriores, que os mantiveram impecáveis, pelos anos que já contam. Bem encadernados, limpos, integrais, tal como foram editados. Chegarem até nós, assim, foi quase uma espécie de milagre...

Depois, este poeta Carlos Queiroz (1907-1949) deixou saudades por quatro ou cinco poemas lindíssimos que escreveu, na curta vida que lhe foi dado viver. E nunca saberemos o que lhe faltou dizer, nessa voz ameníssima, discreta, de grande sensibilidade, que se calou muito cedo. Na altura (1935) em que publicou este seu primeiro livro foi saudado com muito entusiasmo, pela crítica e por quem sabia de poesia. Mas, hoje, parece estar esquecido e já ninguém fala dele, ou dos seus versos. Os tempos não vão propícios para intimismos, nem sentimentos. Antes para exibicionismos desbragados e versos de água chilra...



Já por aqui falei do Poeta (11/5/2013), de que eu tinha a 2ª edição (1950) da obra. E que li com grande gosto. Muito embora, para além dos bons poemas, o livro, em si como objecto, não me despertasse atenção de maior, e o papel dessa edição não fosse de grande qualidade.



Ora, há dias, deparei-me com a primeira edição de Desaparecido, de Carlos Queiroz, no meu alfarrabista de referência. Em magníficas condições (apenas alguns picos de humidade) e na sua tiragem especial, numerada e assinado pelo autor. Encadernado primorosamente, numa osmose perfeita de forma exterior com beleza interior de contéudo.
E, aqui está, a meu lado, à esquerda da secretária, para o ir olhando e folheando, com íntimo prazer.

Philip Glass /Dublin Guitar Quartet

terça-feira, 19 de setembro de 2017

Desabafo (29)


Há três maneiras de um homem não perceber outro homem:

- falarem línguas diferentes;
- terem a cabeça arrumada ao contrário;
- um ser cego e o outro ficar surdo-mudo.

Adagiário CCLXIX ( provérbios brasileiros temáticos)


1. Suspiro de rato não derruba queijo.

2. O único queijo grátis está na ratoeira.

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

A sequência e o tom


Mais almanaque do que folhetim, evito, no Arpose, as rupturas excessivas na sequência de postes, apesar disso. Por vezes, consigo até mini-temáticas de assuntos convergentes que se sucedem com alguma lógica.
Mas acabam por ser frequentes as encruzilhadas, os novos caminhos, as mudanças de tom ou teor da escrita. Entre o mar de Aveiro (foto de Dieuzaide), ontem no Blogue, o meu sono e sonho da noite ( Linha de Estoril e Cascais) e a piscina aquecida, matinal e outrabandista, havia um ponto comum: a Água. Imperceptível para as visitas, sem esta minha subjectiva explicação. Mas não é disso que quero falar, agora.
Saiu recentemente, na Penguin, o último livro de John Le Carré (1931), A Legacy of Spies, que, creio, virá a ser traduzido e editado em Portugal, ainda este ano. Que prossegue, alguns anos depois, a sequência que tem George Smiley como personagem principal. A recensão de Robert Potts, no TLS (nº 5971), intitulada The spies who came back rather old, não é muito lisongeira para com o romance. Se não questiona o tom nem a qualidade da escrita desta obra de Le Carré, aponta diversas incongruências cronológicas do enredo, se referenciadas às ficções anteriores da saga de Smiley. Seria altura de, com benevolência, lembrar Simenon falando dos seus livros: Sou verdadeiro, mas não sou exacto.
Donde eu poderia concluir que, frequentemente, é mais fácil manter o tom do que a sequência condizente...

domingo, 17 de setembro de 2017

Uma fotografia, de vez em quando... (92)


Se é certo que uma das fotografias mais difundidas do francês Jean Dieuzaide (1921-2013) é o institucional e oficial primeiro retrato do general De Gaulle, para além de alguns retratos magníficos de Salvador Dali, não é esse o lado predominante da sua obra.



Talvez por Portugal e a Espanha serem uma ilha no panorama político europeu, por aqui andou, nos anos 50, captando gente do povo, sobretudo do centro beira-mar, de que se destacam algumas belíssimas fotografias da Nazaré e Aveiro, principalmente.



O jogo de volumes, geométrico, entre luz e sombra, bem como a humaníssima preocupação do rosto das figuras do povo português, marcam os seus trabalhos dessa época. De onde não se exclui, também, o interesse pela arquitectura, costumes e tradições.



Já, aqui no Arpose (2/8/2017), lhe arquivámos, uma magnífica foto da Nazaré, em que as mulheres trabalham e os homens descansam, na praia. Hoje, encerramos a reprodução da sua obra, com uma fotografia de Aveiro, de 1954.

Recuperado de um moleskine (28)


Vi, há dias, o filme The Best Offer (2013), de Giuseppe Tornatore (1956), que conta com um notável desempenho de Geoffrey Rush (1951), como actor principal. Por entre leilões, enganos e amores, se processa o destino de um homem. Às vezes, até por ruas mais estreitas e passos confusos, contraditórios. Camaleónico e grande profissional, nas várias personagens que assume, a Rush mal se dá por ele, inteiramente... O que talvez seja o melhor elogio que eu posso fazer a um actor, naquela perspectiva de suspension of desbelief de que falava Coleridge.
Mas também nós nem sempre nos reconhecemos. Passado o tempo adolescente em que pensávamos ser únicos. Nos espelhos, na voz repercutida em gravação, numa ou noutra fotografia, em algumas das decisões que tomámos, quando revisitadas mais tarde. Há sempre qualquer coisa de incoerente em cada ser humano. Inventariadas, ao longo de uma vida, as nossas acções, nem todas colhem o assentimento da concordância ou de uma ética, ainda que consideradas, com isenção, as circunstâncias que as motivaram. Ou, então, a memória não reteve integralmente a emoção da altura, o capricho momentâneo que a ditou, a ira de que fomos possuídos.
Porque também a ingenuidade nos atinge, mais cedo ou mais tarde, apesar da experiência, da astúcia que julgamos possuir, da benevolente memória que retém, com caridade, apenas tudo aquilo que não nos envergonha, obliterando, quase sempre, o que foi negativo no percurso. Para limpar, salutarmente, o cadastro e continuarmos a viver com esse mínimo de dignidade humana que se reforça, de forma natural, ao vermos esse rosto, embora envelhecido, logo pela manhã, no espelho interior da nossa casa. Até um dia, de que talvez nem sequer nos dêmos conta.

sábado, 16 de setembro de 2017

Maurice Ravel / Louis Lortie

 à memória de João Mattos e Silva (11/9/1944 - 16/9/2017), que apreciava esta obra de Ravel.

Dois poemas de João Mattos e Silva (1944-2017)


Motivo XV

Revejo-me num espelho sem contorno,
sem nada.
O mar silencioso dá-me sempre igual
uma alma inacabada.

...
2.

Nas tardes de Setembro
é quando cumpro
o ritual da terra.

Se é Maio no meu corpo
bebo em cada fonte
a sede que sustenho.

Divagações 125


Eu creio que os escritores, ditos regionalistas, estão em queda livre, nas preferências dos leitores.
E também sempre achei que Aquilino Ribeiro (1885-1963) estava para a Beira Interior, assim como Tomaz de Figueiredo (1902-1970) se posicionava para o Minho. Sem comparar qualidades.
O que eu não esperava, é que pudesse vir a comprar, em S. Martinho de Anta, e sob o alto patrocínio de Miguel Torga (1907-1995), um voluminho simpático e bonito sobre a vida e obra do autor de Nó Cego (1950). Mas assim foi, e bem, que o livro é merecedor e o romancista bracarense, também.



Conheci-o, de vista, já lisboeta adaptado, em meados dos anos 60, no Café Ceuta (Av. da República), perorando a uma mesa do canto, entre o poeta Mendes de Carvalho (1927-1988) e a, depois, actriz, Maria do Céu Guerra (1943). Falaria do Minho, com certeza, e das suas andanças passadas, dos seus cães e caçadas, mas também da sua meninice, naquele seu muito próprio vocabulário antigo e riquíssimo de que os seus livros estão engrinaldados. Eu não trocaria os seus Tiros de Espingarda (1966) por quantos tordos já se publicaram; nem o Dicionário Falado (1970), interessantíssimo, eu trocaria pela prosa deslavada do mãezinha caxineiro. Que a prosa de Figueiredo é como prata de lei... Desconto-lhe a poesia, que é fracotinha.



Pois, do Centro Miguel Torga, lá trouxe esta monografia sobre as andanças de Tomaz de Figueiredo, para matar saudades do seu linguajar minhoto, genuíno. E fiz muito bem. Regalei-me...

Joseph Haydn / Puella Trio

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Os psicólogos e as criancinhas desesperadas


Eles estão em todas, de Entre-os-Rios a  Pedrógão Grande,  até à Bela Vista (Lisboa). Deve ter sido, das profissões artesanais, uma das que mais cresceu, em Portugal, depois de 1974.
Onde haja choro, sangue, tragédia, lá aparecem eles, vestidos de escuro, quais aves agoirentas, ou de claro como anjos salvíficos. Fazem crescer, perante a dor, os infelizes. São os gatos-pingados das almas desprotegidas e da infância desvalida que nunca há-de amadurecer.
Hoje, o Expresso online, titula: Cancelamento de Lady Gaga leva psicólogos ao Rock in Rio.
O que seria de Portugal sem eles?
Eu nem quero imaginar...

Retro (95)


Um jornal diário tem, hoje, uma existência efémera - deita-se fora amanhã.
Mas, em tempos recuados e mais poupados, guardava-se e, com outros, vendia-se ao quilo, aos homens do papel e trapo velho, que os levavam, primeiro, em carroças, depois, em camionetas de caixa aberta. Também cheguei a ver peixes do rio serem vendidos embrulhados em papel de jornal.
Actualmente, só os hebdomadários, às vezes, se conservam em casa, para ir lendo ao longo da semana, quando são extensos. Não deixam, no entanto, de ser efémeros. 



Passada, porém, a actualidade do seu conteúdo informativo, um jornal pode vir a ganhar, com os anos, um valor histórico e arqueológico, ressurgindo como uma curiosidade interessante e sociológica, se a época em que foi produzido e composto vier a ter alguma importância no futuro ou se tiver sido recheada de acontecimentos importantes.
Há tempos, comprei usados uns livros que, muito bem dobrados, continham dentro dois jornais O Comércio do Porto (1854-2005), do imediato post-II Grande Guerra (27/10 e 27/11/1945). Do suicídio do presidente Getúlio Vargas (Brasil) ao julgamento de Nuremberga, havia notícias muito interessantes, colhidas a quente, na altura.



Havia até uma pequena local a informar que, na véspera, o sr. Presidente do Conselho (Salazar) tinha trabalhado com o sr. Ministro das Finanças. Aliás, era costume dar as notícias do estadista português sempre depois de terem acontecido. Nunca se dizia, por exemplo, que ele ia a tal sítio, mas que tinha ido, ou esteve. Justificando o seu trabalho aturado e, provavelmente, prevenindo a sua segurança. E foi assim que ele ganhou a alcunha de: Esteves...

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

Previsões


Temas de que se vai ouvir falar e repisar, na comunicação social portuguesa, à falta de melhor assunto ou na ausência de imaginação por parte dos nossos jornalistas e comentadores, nas próximas duas semanas, e invariavelmente:

1. Coreia do Norte.
2. Catalunha.
3. Compra e venda de imobiliário em Lisboa.
4. Futebol, para não se perder o hábito.

Mas que tédio!...

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Em tempo


Não sendo eu grande apreciador de arte sacra ou pintura com motivos religiosos e hagiográficos, abro,  no entanto, algumas excepções. E não sou entusiasta destas temáticas, pela pouco originalidade que encerram e pelas encomendas pouco inspiradas de que foram objecto. Tal como aqueles versinhos provincianos comemorativos que se fazem e fizeram muito, sobretudo nos séculos XVII e XVIII. Ora, dessas pinturas de motivos religiosos, normalmente medíocres, estão as nossas igrejas cheias. Para isso, prefiro os ex-votos que, na sua rudeza ingénua, têm, pelo menos, uma bruta autencidade original.
Não é o caso desta Nossa Senhora da Madressilva, que se guarda no Museu de Aveiro. Que me fascinou, nesse meio caminho entre o gótico e a Renascença, vinda de Itália (Oficina de Siena) e pintada que foi, a tábua, por volta de 1500. Terá sido comprada e trazida por D. Catarina da Silva (daí a invocação: Madressilva), quando por lá andou a acompanhar a futura imperatriz D. Leonor para casar com Frederico III. Mais tarde, D. Catarina veio a professar no Convento de Jesus, e a belíssima pintura veio com o dote da fidalga. Das obras que enriquecem o Museu de Sta. Joana, é uma das que eu não podia esquecer. Pela sua quase perfeição.
Aqui fica, em preito de homenagem e admiração estética.

Produtos Nacionais 23


Os frutos, inteiramente portugueses, eram de Sabrosa (Trás-os-Montes); o engenho e a arte foram de HMJ, pela sua transformação doméstica em uvada, ladrilhos de marmelo em calda e figos de compota. Ficou um resto para irmos petiscando, ao natural e em cru (excepto os marmelos...).
Faltaram os Covilhetes de Vila Real (já tinham ido todos...) e as Cristas de Galo vilarrealenses, recheadas a Toucinho do Céu, dentro de envólucros, que pareciam de massa tenra. E, esses, vieram, por oferta amiga, da Pastelaria Gomes, que eu recomendo, indubitavelmente. Se lá forem.

terça-feira, 12 de setembro de 2017

Modest Mussorgsky / Maya Plisetskaya : de "Khovanschina" (Dança das Escravas)


para MR, com as melhores lembranças.

Os capatazes dos jornalecos


Um director barbado de gauche, dissimulador, dum dos jornais portugueses de referência, que já atribuiu a Lobo Antunes um verso que era de Sá de Miranda, tem, como se poderá imaginar, uma memória muito curta. E não guarda, ao que parece, muito respeito ao PR piador e penúltimo. Há dias, até lhe desfechou uma frechada, para disfarçar. Mas tenta fazer-se esquecer de assessor, que foi, venerador e obrigado de tal criatura - deus lhe pague!
Hoje, afirma no seu couto privado: O futebol entra a pés juntos sobre a democracia - em palavras atiladas de virgem ofendida. Como se fosse a primeira vez que isto acontece... Será que, com aquele sorriso de yuppy serôdio, ele não se atirou, também, de mergulho, da prancha carunchosa do cavaquismo, para a piscina voluptuosa e mirífica das grandes superfícies tablóides? Porque, valha a verdade, o Público já foi outra coisa, em tempos mais limpos e remotos...

Com ambições de Máxima...


Talvez seja, racional e coerentemente, tão difícil explicar algumas opções, ao longo da nossa vida, como justificar, razoavelmente, a existência de Deus.

Sacro e profano (2)


Não seria decerto como nas igrejas da antiga Goa, em que os espaços para as diversas castas indianas eram estanques. Mas da casa senhorial, neste caso, havia um passadiço por onde as gentes do palacete acediam, ao alto, na capela. Criados e povo entravam pela porta da rua, chapeada, para ouvir missa. Quando lha abriam para o serviço divino.

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Sacro e profano (1)


Em três manchas rochosas acachapadas à terra, bem perto da Sabrosa vinhateira e do pequeno centro xistoso evocativo de Miguel Torga, marca terreno, em toda a sua rudeza, o chamado Santuário de Panóias. Pelas inscrições romanas e gregas se fica a saber ter sido mandado fazer, entre os séculos II e III D. C., pelo senador Gaius Calpurnius Rufinus. Para celebrar os Deuses Severos, que tinham em Serápis, o nome maior. As aberturas geométricas, nas rochas, destinavam-se à imolação dos animais, para aplacar a ira dos deuses. E por ali correu sangue de pacíficas vítimas, sacrificadas pelos humanos primitivos.
Eramos apenas 4 os visitantes, a calcorrear o terreno agreste. Que a horda dos turistas, na sua algazarra babélica e lumpen, se tinha ficado, felizmente, pela invasão desordenada de Aveiro e dos seus moliceiros, com passeios fluviais de 45 minutos, a 10 euros. E o silêncio sagrado abençoava Panóias. Também nas redondezas se tinham acabado de colher as uvas brancas: a Formosa, a Viosinho, a Fernão Pires, a Códega do Larinho... Mas as tintas, esperavam e espreitavam ainda, por entre as parras verdes, através do que pareciam os seus olhos de cachos negros: Tinta Roriz e Touriga Nacional, principalmente.
Também nós viríamos a sacrificar, à mesa, mais tarde, e em Vila Real, alguns nacos de vitela, civilizadamente. Acompanhados por um divino e aromático branco duriense da região, bem fresco. Em ágape solene, fraternalmente amiga, mas laica...

sábado, 9 de setembro de 2017

Reincidente, Tom Jones...

Citações CCCXXV


Ela não era uma mulher de muitas palavras; porque, ao contrário das gentes, em geral, procurava estimular-lhes, sobretudo, um grande número de ideias.

Jane Austen (1775-1817), in Sense and Sensibility.

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

Pinacoteca Pessoal 128


Dele nos diz Manuel Telles da Silva, no seu Vida e Feitos de D. João II, que: "Foi de estatura um pouco elevada e de corpo delgado até à adolescência, mas depois obeso; o rosto comprido e formoso, entre o branco e o corado; os olhos negros e agradáveis, mas, quando se irava, raiavam-se de sangue e incutiam temor; o nariz de justa medida. Os cabelos eram densos e arruivados, e, embora tivessem embranquecido precocemente, não deixou arrancar as cãs."



Tiveram vida breve os dois filhos de D. Afonso V (1432-1481). Se D. João II (1455-1495) ultrapassou em pouco mais de 5 meses, os 40 anos, sua irmã mais velha, princesa Sta. Joana (1452-1490), finou-se com 38, em Aveiro. Da iconografia existente verifica-se uma parecença física notável. A boca, o rosto alongado e provavelmente a cor dos cabelos, para além dos olhos. Mas também a obstinação de carácter os irmanava. D. Joana na recusa em casar-se, D. João II na forma desapiedada e firme com que consolidou o seu poder pessoal e régio.
O retrato da Princesa, considerado da escola de Nuno Gonçalves, é um dos ex-libris do Museu de Aveiro, homónimo. Em Sevilha, na Fundação da Casa Ducal de Medinacelli, está o retrato de D. João II, cópia de um retrato perdido do Príncipe Perfeito, pintado talvez em 1490, de autor desconhecido.

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Direito ao contraditório


em remake, e com agradecimentos ao autor.