terça-feira, 16 de janeiro de 2018

Uma fotografia, de vez em quando... (97)


Galês, disléxico e autodidata, o inglês David Hurn (1934) iniciou-se, com sucesso, na arte da fotografia, em 1955, e dez anos depois passou a integrar a Agência Magnum, por mérito próprio.



Acompanhou de perto a ascensão de The Beatles, mas também lhe solicitaram que testemunhasse as filmagens dos primeiros Bond e da Barbarella-Fonda, de Vadim.



Mas nem por isso o quotidiano britânico escapou à sua objectiva.


domingo, 14 de janeiro de 2018

Apontamento 109: Uma boneca "Käthe Kruse"


Na profusão de bonecada que, actualmente, enche a casa e os quartos das crianças, será, certamente, difícil de imaginar qual o objecto que sobreviverá na memória visual da pequenada.

Entre ursos e bonecas não chegou ao número dez, retendo na memória, ainda, cerca de cinco bonecas que já não fazem parte do meu universo, espalharam-se, algures, na voragem do tempo. Em casa guardo uma boneca, que já teve a sua apresentação no ARPOSE, e o meu urso, velhinho, com as patas e as mãos remendadas.

Ora, uma boneca da marca “Käthe Kruse” era, na minha infância, o supremo desejo, inalcançável. Nas visitas às lojas de brinquedos, lá mirava as bonecas, feitas de pano, com cabeça tipo louça e cabelo natural. Era objecto para casas abastadas. A marca registada tem o nome da actriz e produtora de bonecas Käthe Kruse (1883-1968) que, depois de fazer os bonecos para as suas filhas, iniciou a sua produção em 1911.

Mas, como há dias de sorte, ganhei, na recta final da minha vida, uma boneca destas, que aqui se apresenta:




Durante a recente estadia na casa da  minha amiga, ela abriu o seu velho baú e mostrou-me uns vestidos de bonecas, para escolher e levar o que quisesse. Depois dos vestidos veio a sua colecção de bonecas. Algumas partidas, outras bem guardadas. Lá espreitei e vi a boneca “Kathe Kruse”. À pergunta se eu queria a boneca, quase não houve contenção de delicadeza na minha resposta.

Assim veio a boneca para Portugal. Tem ca. de 39 cm e o número 2/7777 gravado na planta do pé. Lavei-a, com muito cuidado, com água morna e sabão CLARIM, avivando-lhe a cara com óleo de amêndoas doces. Um dos sapatos, como se pode ver pela imagem abaixo, foi preciso colar depois de limpo com o mesmo sabão e cotonetes.



Depois, vesti-lhe o fato antigo da minha outra boneca. Falta apenas encontrar umas meias, umas cuecas e uma outra blusinha para condizer com a saia que trazia, toda bem feitinha pela mãe da minha amiga.


E aqui está ela, a recém-chegada à minha colecção de bonecas.


Post de HMJ

Clara Schumann : Toccatina

sábado, 13 de janeiro de 2018

Mercearias Finas 128


Afeiçoei-me ao Delhaize (passe a publicidade), quando estou em Antuérpia, e quero comprar, para oferecer ou beber em companhia, bons vinhos portugueses. A escolha, nas gôndolas da média superfície, não é muito grande, mas é criteriosa e de confiar. Lá encontrava, habitualmente, o Dão Quinta das Maias que, até em Portugal, nem sempre era fácil de adquirir. Ora, este ano, não havia vinhos do Dão nas prateleiras do Delhaize. Regionais Tejo, Douro, Alentejo, e até do Algarve, tanto quanto me lembro. E o canónico Mateus, da Sogrape, como não podia deixar de ser, para meninas casadoiras e senhoras solteironas impenitentes...



Firmei a vista, na prateleira de cima, e vejo um Alves de Sousa, de discretíssimo rótulo com bom gosto, que dava pelo simples nome de Caldas - Reserva, de 2012. Um monocasta Touriga Nacional, com 14º que, vim a sabê-lo, depois de o provar, estava excelente na sua maturação e acompanhava muito bem qualquer iguaria requintada, que viesse à mesa. No supermercado flamengo, dei por ele 11,99 euros - bem merecidos! Por cá, terra de origem, vi-o anunciado a pouco mais de 11.
Não teria dúvidas em escolhê-lo como o melhor vinho tinto que provei em todo o ano de 2017.

Lembrete 62


Como não é todas as semanas que aparecem referências a Portugal, no TLS, aqui venho sublinhar a saída de uma obra de Neill Lochery (Out of the Shadows) sobre a história mais recente portuguesa, do 25 de Abril até aos nossos dias. O livro vem recenseado, favoravelmente, no penúltimo TLS (nº 5988), por David Gelbert.

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

De Antonio Gamoneda (1931), uma versão traduzida


Sábado

1.
O animal que chora, esse morou na tua alma antes de ser amarelo;
o animal que lambe as feridas brancas,
esse está cego de misericórdia;
o que dorme na luz e é miserável,
esse agoniza no relâmpago.

A mulher cujo coração é azul e te alimenta sem descanso
essa é tua mãe no interior da ira;
a mulher que não esquece e está nua no silêncio,
essa foi a música dos teus olhos.

Vertigem na quietude: pelos espelhos entram substâncias
corporais e as pombas ardem. Desenhas juízos e tempestades
e lamentos.

Assim é a luz da velhice, assim
a aparição das feridas brancas.

quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

Instinto, razão e obscuridade


Eu lamento aqueles poetas que se guiam apenas pelo instinto; parecem-me incompletos. Na vida espiritual dos primeiros deve vir a acontecer uma crise quando eles pensarem a sua arte e descobrirem as leis obscuras em consequência das quais eles criaram e produziram, arrastados por uma série de preceitos cujo divino objectivo é a infalibilidade da criação poética.

Charles Baudelaire (1821-1867), citado por W. H. Auden, in The Dyer's Hand (pg. 42).

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Revivalismo Ligeiro CCLXXVI

Lembranças de Antuérpia


A Bélgica é um país pequeno, mas tem edifícios enormes a atestar, de forma inequívoca talvez, um passado imperial (Congo, Ruanda...), ainda que muito breve, em tempo de seu exercício...
A estação ferroviária de Antuérpia, construída entre 1895 e 1905, é um bom exemplo dessa desmesura, embora hoje razoavelmente aproveitada nas suas três plataformas de vias para comboios de vários destinos europeus.



Ponto turístico de consenso geral, como para mim é, do ponto de vista particular, a livraria De Slegte, à beira da casa(-museu) de Rubens, pintor que eu já não frequento por devoção artística, também pela sua desmesura de celulites, tão bem expressa no Rapto das Filhas de Leucipo (hoje, em Munique), que colhia as minhas preferências juvenis, em detrimento dos retratos da também nutrida Hélène de Fourment.



A De Slegte, comedidamente distribuída por três andares, dedica um deles aos livros usados, a bom preço normalmente. De lá trouxe, há uns anos, uma abada de livros de Simenon que me faltavam, sem esportular muitos euros. Desta vez, tive menos sorte. Mas ficaram-me os olhos num Le Marteau sans Maître, de René Char, na sua edição original (500 exemplares), autografada, acompanhada de uma carta do poeta francês, justificando a oferta. Pediam 600 euros pelo lote, mas eu não estava preparado para tanto...



Tive de me contentar com a versão francesa de An der Zeitmauer, de Ernst Jünger, em muito bom estado e por abrir, que me custou apenas 10 euros, e que tenho vindo a ler, com agrado e proveito.

segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

Adagiário CCLXXIV


Galo que fora de horas canta, faca na garganta.



Aviso: o nomadismo previsto, próximo-futuro, vai obrigar ao hibernar involuntário do Arpose, nos próximos dias de Janeiro. Até ao nosso regresso! E um óptimo 2018, para todos!

Um Concerto de Ano Novo (2018)


Tive a sorte, ou o azar, de ver a integral do Neujahrskonzert 2018, num canal televisivo, pela Orquestra Filarmónica de Viena, dirigida por Riccardo Muti. Que saudades me vieram das ousadias de Herbert von Karajan, e dos seus repertórios musicais, para estas galas de Ano Novo!...
A assistencia era, como habitualmente, a" fina flor do ...", mas com muitos rostos orientais à mistura. O sr. Muti veio engravatado e a sua seleccäo era de 12 músicas. Para além de uma obra de Suppé e outra de Alphons Czibulka (?), todas as outras 10 eram da família Strauss, a pré-finalizar com o Donau... Irra!
Em vez do sr. Muti, mais valia terem encarregado o Rieu (ficava decerto mais barato) que talvez incluisse o Für Elise, para alegria comovida dos ilustres convidados de Viena, e deste pindérico concerto, que mais me vale esquecer...

A abrir


Tocam sinos matinais, propagando-se no ar frio do primeiro dia de 2018.
O Silvester, como por aqui chamam ao último dia do ano, até contou com a Lua Cheia e o seu luar para, intermitentemente, intensificar a vista  do fogo de artifício que, das casas particulares, se foi ouvindo e vendo, até ao auge da meia-noite.
Às 11h15, está Sol, mas até já choveu um bom bocado. Para o dia primeiro de Janeiro, os 12 graus positivos, que se respiram no amplo terraco da casa, representam uma benesse inesperada do Ano Novo. Pássaros aventuram-se até aos ramos despidos das árvores, e os corvos, crocitando, vigiam do alto.
E, como do meu rifoneiro já esgotei os provérbios alusivos aos meses do ano, assim reinicio e reabro o Arpose, falando do tempo - que é sempre um tema apropriado -, neste início auspicioso de 2018, em Koblenz.
Podem ir entrando, com o pé direito...

domingo, 31 de dezembro de 2017

O que fica do que foi


Ao passear a vista pelos desaparecidos em 2017, no jornal de hoje, fiquei surpreendido por algumas figuras que pareciam ter morrido há muito mais tempo. Se o falecimento de Johnny Hallyday ainda me estava presente, na memória, por recente, a morte de Helmut Kohl (em Junho de 2017) parecia-me ter ocorrido há muito, num passado distante já muito obscurecido.
Nem tudo se pode arrumar na cave, fechando o saco, ou no poräo, se preferirmos a metáfora marítima. E, por outro lado, ninguém adivinha quem vai subsistir, verdadeiramente, por influencia, memória e imagem tutelar, nas nossas vidas, daqueles que väo desaparecendo. Como dizia Marguerite Yourcenar, só "o tempo, esse grande escultor" ditará os nomes que nos väo acompanhar, até um dia...

sábado, 30 de dezembro de 2017

Uma quadra muito tosca


Às dezassete
anoitece.
Nem por isso, pelas oito,
a manhã se esclarece.


Kbz., 29-30/12/2018.

Cuspidor, irreverente e malandreco


Sem o impudor inocente do Manneken Pis, de Bruxelas, também Koblenz tem o seu jovem adolescente que cospe, de 3 em 3 minutos, um jacto forte e inesperado de água sobre o turista desprevenido que o contempla. Dá pelo nome de Schängelbrunnen, e situa-se na Willi-Hörter-Platz, desde 1941.
Cuidem-se!...

sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

Marlene Dietrich - Lili Marleen



Um clássico, wieder, embora numa outra versäo...

Os acantonamentos nacionalistas, ou o estreitamento dos horizontes (culturais)


Na Lisboa antiga dos anos 60, eu era um felizardo. Para além do acesso a uma pequena, mas bem escolhida, biblioteca da embaixada japonesa, por onde li (em ingles) várias centenas de haiku e outras poesias nipónicas, tinha na Av. Duque de Loulé, à minha vontade, várias centenas de clássicos norte-americanos, para ler, gratuitamente, no Centro Cultural estadunidense. Depois, havia uma Livraria Britanica, perto do Cais do Sodré, duas livrarias espanholas bem abastecidas, uma delas muito próxima da Almirante Reis. E ainda havia a Buchholz. Sem esquecer as grandes livrarias portuguesas que eram pródigas em livros franceses, ingleses, espanhóis e teutónicos. Na verdade, Lisboa, nessa altura, era muito mais cosmopolita (e lida), culturalmente.
Hoje, é a miséria que sabemos, apesar da FNAC, que foi encurtando o seu espólio de escolha, pouco a muito, mesmo em obras gaulesas. Fechou entretando a Portugal, a Clássica, e a Sá da Costa hoje transformada em antiquário empalhado, com livros a custos à moda do Porto, que pouco acrescenta ao panorama livreiro. Restam 2 ou 3 alfarrabistas importantes. Mas noutros países, o mesmo vai acontecendo. Aqui, por Koblenz, é impossível encontrar "L'Obs." ou o TLS, para comprar. E, quase esgotada a minha reserva de livros para ler, pedi conselho (a quem sabe) sobre uma livraria da cidade, onde eu pudesse escolher obras, em língua inglesa ou francesa. Depois de muita pausa, foi-me indicada a Reuffel, no centro de Koblenz. E lá fui.



O panorama foi desconsolador. De livros ingleses, tirando os dicionários, havia meia prateleira, e grande parte dos títulos (talvez 30)  era para consumo escolar do Liceu (Shakespeare, Huxley...). Trouxe um James Baldwin, Sonny's Blues. Os livros franceses sempre ocupavam mais comprimento, talvez duas prateleiras, e aí uns 100 títulos, quando muito. Em desespero de causa, de lá trouxe La Cache, de Christophe Boltanski. Autor para mim desconhecido, tirando o facto de ser colaborador do Libération e o livro ter recebido o Prémio Femina de 2015. Dois tiros no escuro, a bem dizer...


Parece poder concluir-se que, apesar do linguajar norte-americano globalizante e cheio de erros e abreviaturas internéticas que por aí se fala e escreve, os europeus väo lendo cada vez mais e apenas nas suas próprias línguas nacionais. Ao menos, em papel.
Patrioticamente?

quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

Um museu à medida de Koblenz


Sem a riqueza do acervo do Museu Ludwig, de Colónia, o Mittellrhein-Museum de Koblenz integra, desde 2013, no centro da cidade e em edifício arejado e condigno, esteticamente bonito, vários focos museológicos, até essa data dispersos pela urbe renana. Variados segmentos, que compreendem a arqueologia, arte sacra, com um interessante grupo estatuário de madonas sorridentes, bem como um acervo pequeno, mas significativo de pintura antiga, de que eu destacaria um pequeno quadro representando Santa Ana, a Virgem e o Menino, de autor desconhecido, do início do século XVI;



muito próximo, se pode apreciar, do flamengo Lucas van Valckenborch (1535-1597), uma Torre de Babel (1585), finamente executada, apesar de nos lembrar outras obras da nesma época, sobre o mesmo tema, de outros pintores, embora talvez menos conseguidas.



O retrato está abundantemente representado, por obras de pintores regionais, menos conhecidos, alguns dos quais muito sugestivos na sua expressividade humana. O Mittellrhein-Museum tem também um acervo interessante de pintura moderna e contemporanea que integra, entre outras, pinturas de Munch e Nolde.
E quero por aqui arquivar, por gosto pessoal, uma pequena paisagem fluvial de Turner, de 1842, que muito me agradou e surpreendeu.



Ora, foi assim que gastamos, culturalmente, a nossa Quinta-feira, matinal, com prazer e proveito, em Koblenz, sem Sol, mas também sem que a chuva nos incomodasse.

O acinzentar da vida


Era Paul Cézanne que dizia, em conversa com Joachim Gasquet, que:  Näo somos pintores enquanto näo pintarmos um cinzento. O inimigo de toda a pintura é o cinzento, diz Delacroix.
Provavelmente, nem todos os pintores se associam a este pensamento radical. Depois, há cinzentos e cinzentos: o verde cinzento, o castanho cinzento, o azul cinzento... 
Porém, convivendo há mais de uma semana com céus cinzentos, eu arriscaria dizer que, embora monótono e talvez inimigo da alegria, pode conviver-se com ele, seriamente, e de boa fé...

quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

Desabafo (31)


É um sossego estar aqui (Alemanha), sem acesso aos verborreicos noticiários televisivos portugueses, nem aos minuciosos e paroquiais explicadores jornalistas e comentadores lusos. Há por aqui um filtro teutónico, adulto e saudável, que me poupa às frioleiras apatetadas e só deixa passar o essencial do que vai acontecendo pelo mundo.

Culturas e idades


Passará despercebido a muitos, que a Alemanha costuma dedicar um especial interesse político, económico e cultural, aos países vizinhos geograficamente colocados a Leste. Talvez mesmo superior ao que consagra aos seus vizinhos do Oeste europeu. Disso se faz eco, por exemplo, o livro (Pátria Apátrida) que ando a ler de W. G. Sebald.
Sendo do ano da minha colheita este escritor, isso poderá também indiciar uma escolha geracional, posterior à II Grande Guerra. O que, perante alguns autores da Europa Oriental, me deixa, por vezes, em branco, relativamente ao assunto de alguns capítulos mais específicos da referida obra. Nomeadamente, certos ficcionistas secundários do desaparecido império austro-húngaro, de que tenho um deficiente enquadramento.
A idade, no entanto, irmana as pessoas, frequentemente, pelas afinidades culturais comuns e referencias concretas, semelhantes, bem como históricas. Acontece que, por brincadeira e cá por casa, no convívio familiar temporário, eu e J. G., nos temos vindo a tratar pelos pseudónimos de Dr. Livingstone e Mr. Stanley, humoristicamente.
Porque, apesar de criados em países diferentes (Alemanha e Portugal), ambos temos presente o célebre episódio do encontro, em África, dos 2 exploradores. Que ficou consagrado pela expressiva pergunta inicial de Henry Morton Stanley: Doctor Livingstone, I presume?! Facto histórico comum, afinal, ao nosso (quem diria?) património cultural. Europeu. E, assim, ambos também, sabemos perfeitamente daquilo de que estamos a falar...

terça-feira, 26 de dezembro de 2017

Crónica sucinta dos antecedentes


O Helmut , aperaltado e dominical, trazia o ganso num cesto, muito bem acomodado. Congelado, claro, mas que chegava quase aos 6 quilos. A Karola, varoa sólida e renana de rosto prazenteiro, era portadora das delikatessen e da alegria. Várias compotas de manufactura doméstica, bolachinhas natalícias de oferta. O casal simpático somava, entre si, século e meio de idade, mas ninguém o diria. Isto foi no Domingo, matinalmente, seriam umas 9h30.
Às 7h00 de Segunda-feira, HMJ acantonou-se ao forno, dando voltas ao bicho, de hora a hora, e aspergindo-o de molho para que mantivesse a tenrura e macieza de pele. Meia-hora antes do comer ir para a mesa, iniciou-se o arroz de miúdos, já a couve roxa estava no ponto e as herzogin kartoffeln, substituídas por batatas fritas, que vieram a meu benefício. Que os pomos de recheio, no papo do ganso, também já rescendiam, divinais. A ágape iniciou-se às 12h45.
Nada faltou. Mas ainda sobraram uns fiapos tenros da ave natalícia, que estava saborosíssima...

Em Koblenz, neste ano gracioso de 2017, a 25 de Dezembro.

segunda-feira, 25 de dezembro de 2017

Louis Armstrong - White Christmas


Que me perdoem os puristas do género e das etnias, que, dos Reis (magos), só para aqui tenha trazido e convocado o nobre Baltazar...

domingo, 24 de dezembro de 2017

Uma ilha citadina, por entre o Reno e o Mosela


Oberwerth é uma espécie de Mouchao (adicionar o til, por cima do "a"), à moda da Alemanha. Ou seja, é uma ilha, na cidade de Koblenz, no meio do Reno, já depois deste rio ter absorvido o Mosela, após o singular triangulo do Deutsches Eck, donde também se pode ver a pesada Festung (Fortaleza) do Ehrenbreitstein. Por lá dormi uma noite, na existente Pousada de Juventude, da altura, num Agosto dos meus ainda verdes anos.



Oberwerth é uma ilha fluvial tranquila, com pouco comércio, muito arborizada e com uma fauna, sobretudo aves, bastante diversificada. É uma zona residencial, por excelencia.
Quando, pela primeira vez (1964) estive no Deutsches Eck, os dois rios reunidos podiam distinguir-se, perfeitamente, pelas suas cores diferentes, ao longo do horizonte visível.
Hoje, infelizmente, tem a mesma cor. Poluida, embora pouco.

Mas será em Oberwerth que o Ganso Assado constituirá o prato forte do nosso Natal familiar, a 25/12/2017, acompanhado por um vinho tinto de Baden, de que já experimentámos a boa qualidade...
Bom Natal, a todos, seja com peru ou bacalhau!

sábado, 23 de dezembro de 2017

Outroras


A singularidade de determinadas datas arrasta consigo a memória torrencial de tempos iguais, passados.
Se, nas primeiras Consoadas, a figura matricial da minha Tia Ermelinda pontificava, nos Palheiros, ocupando, como tema de conversa à ceia natalícia, vimaranense, as aventuras de conseguir o melhor bacalhau de lasca grossa, fosse ele do Rebelo, da Noruega, do Bernardino J., da Islandia ou da Inglaterra, esta próxima consoada, numa improvável ilha do Reno, terá contornos muito próprios, exóticos quase para mim, com ganso assado por entre couve roxa, airelas, e outros sabores estranhos de componentes tradicionais teutónicos.
Terá sido nos primeiros anos da década de 80, que o veterano da minha mesa natalícia resolveu enumerar as várias casas e natais, por onde passara, ao longo da sua vida. Militar na reserva, e com passado colonial, o seu nomadismo ultrapassava as 30 moradias. Eu meti a viola ao saco, porque todos os meus natais tinham sido continentais e, ainda hoje, os posso enumerar, quase todos, pelas ruas: Palheiros, Alberto Sampaio, vimaranenses; de Riba de Ave, 5 consoadas, de que esqueci o nome da rua. A Sul, depois: S. Sebastiäo da Pedreira, Rodrigo da Fonseca e Manuel Parada. Talvez, António Maria Cardoso, mas apenas uma vez.
Internacionalizo-me este ano, na Simrock Strasse, de Koblenz. Mesmo assim,  nem chego a 10 locais de consoada, diferentes, o que faz de mim um verdadeiro sedentário natalício. Conservador e tradicional, assim seja, por agora e pela época que atravessamos.

As fadas do lar e os mexidos vimaranenses


Todos os anos, atavicamente e por esta altura, quais borboletas nocturnas fascinadas pela luz, dezenas (centenas?) de donas de casa devotadas (ou meramente curiosas...) visitam um velho poste (de 24/12/2012) com a receita tradicional dos Mexidos ou Formigos Vimaranenses.
É assim que este poste ocupa o terceiro lugar (1.163 visitantes, hoje e até aqui), dos mais visitados do Arpose. Só este Dezembro de 2017, conta já 129 consultas...
Mas uma coisa é a coscuvilhice ou curiosidade, e outra, o respectivo labor de executar a receita para prazer lambareiro das famílias. Quantas destas "fadas do lar", que flanam pela Net, a pensam executar?
Creio que muito poucas, certamente...

sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

Balancete de um Dezembro heterodoxo


Evitando convocar, para aqui, John Lennon, imagine-se:

- um céu cinzento que nada promete.
- a morrinha galega de Rosalía, que polvilha a rua e os caminhos, por onde andamos.
- 9 (ou 11) periquitos Alexandre, formando uma colónia inesperada e alacre, numa aldeia à beira Reno.
- uma jovem empregada simpática, mas indiferenciada e ignorante, num quiosque de Koblenz, que nada sabia de revistas estrangeiras, nem sequer onde estavam arrumadas, nos escaparates.
- a recordada memória de 8 gatos (Miki, o pomposo "Il Divo" - que assim lhe chamei -, o Santos...), mais a Rita, muito vivaz rafeira que veio do Brasil. E  ainda 7 porcos-espinhos, quase prontos a hibernar.
- mais o ganso assado com couve roxa, mais um Primitivo tinto, italiano, ontem à noite, servido pelo Mario, croata que mais parecia italiano, na sua loquocidade gesticulante, e que, pelo seu aspecto físico, passaria muito bem por filho de Bashar al-Assad, na sua vera imagem.
- duas ou mais grappas, de Barolo, Chardonnay, Muscat, distribuídas por estes 3 dias, para acalentar o desconforto, relativo, de longes terras, e escrevinhar com gana estas notícias renanas, que por aqui deixo.

E agora acrescentem a personagem invisível do desesperado Blogger a escrever um poste, evitando o til e outros preciosismos ortográficos lusos, que o soberano computador renano, ostensivamente, ignora...

Citações CCCXXXIII


A gratidão é um dever que merece ser recompensado, mas que ninguém tem o direito de esperar.

Jean-Jacques Rousseau (1712-1778).

segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

Natal e Ano Novo


Vai o Arpose entrar em vilegiatura, descanso e velocidade de cruzeiro, nos tempos mais próximos. Desconheço até, de momento, se virei a poder acrescentar, tão cedo, alguns postes ao Blogue, do lugar para onde iremos, ou responder, a partir de agora, a comentários.
Nesse sentido, endereçamos antecipadamente, com estima, aos Amigos, Comentadores  e Seguidores, os melhores votos de Boas Festas.

E, entretanto, aqui deixo de Arcangelo Corelli (1653-1713) o Concerto fatto per la Notte di Natale.

Sem título


Pode viver-se por convencimento tácito uma situação, que se repete, ainda que lhe faltem os ingredientes originais e as personagens matriciais que lhe deram substância em tempos remotos. Pode até não haver a falsidade de nos enganarmos, mas simplesmente uma adesão afectuosa de aconchegarmos o corpo, do frio, e a alma, de saudosas memórias. Podemos até mudar de geografia, de casa, de gastronomia, mas o Natal acaba sempre por vir ter connosco, quer queiramos ou não, na sua nudez de criança e maravilha, na sua incomodidade desajustada, às vezes. Até um dia, em que faltaremos à mesa...