domingo, 22 de abril de 2018

Sem título


Não valerá a pena iludirmo-nos sobre a independência dos orgãos de comunicação social portugueses. Neles predomina, por várias razões, o pensamento único, o célebre TINA de não há muitos anos. Que era apoiado, acéfala e fanaticamente, pela gentinha e jornalistas desta nossa terra sem imaginação, nem pensamento próprio. Longe vão os tempos em que havia possibilidade de escolha jornalística entre o Diário da Manhã, o DN, o DL e A República, por exemplo. Hoje, a diferença entre canais televisivos, ou entre jornais, não existe. Todos se regem pela mesma cartilha, todos se clonam, na babugem dos dias, pela mesma cruzada de uma nova gente (velha) mercenária e subserviente ao poder dominante ou oculto de interesses.
Daí, que é útil e refrescante, ler a crónica de Vicente Jorge Silva, hoje, no Público. Até por uma questão de sanidade mental e pelo sagrado direito à diferença. E para termos em conta a suja promiscuidade e os negócios que hoje se fazem entre os agentes do poder judicial, que vendem a informação, como, ontem, faziam os colaboradores da P. I. D. E.

Filatelia CXXIII


Dificilmente saberemos, um dia, aquilo que Isabel II pensa da vida e do mundo. Ou mesmo do Brexit. E, embora, num tom irónico de um documentário que vi, recentemente, o jornalista refira que, em relação à biblioteca da Rainha, os livros parece não terem sido mexidos nos últimos 40 anos, dou o benefício da dúvida de que Isabel II, do alto dos seus 92 anos e da sua experiência de 66 anos de reinado, alguma sabedoria terá adquirido. Mesmo que leia pouco e que veja muita televisão. A crise do Suez (1956), a guerra das Malvinas (1982), a morte de Diana (1997), tê-la-ão, decerto, feito reflectir um pouco, pelo menos.



Também o Royal Mail sofreu profundas alterações, de 1952 até hoje. De uma gestão equilibrada em emissões de selos, gradualmente, passou a uma desenfreada política comercial, que se iniciou bem antes até da sua privatização. Por uma questão de justiça, refira-se a grande qualidade gráfica que se tem mantido, por entre ventos e marés, nas séries dos correios ingleses. Não creio que Isabel II tenha tido grande influência neste facto, muito embora a colecção filatélica da Casa Real britânica seja considerada como uma das mais completas e melhores do mundo, graças à paixão e empenho que Jorge V (1865-1936), seu avô paterno, distinto filatelista, lhe consagrou.




Hoje, data do aniversário de Isabel II (21 de Abril de 1926), o Royal Mail não se esquecerá, com certeza, de celebrar o facto, com uma condigna emissão de selos, alusiva à efeméride.


sábado, 21 de abril de 2018

Comic Relief (140)

O  pensamento realista abaixo transcrito não me chegou do PAN. Mas foi-me enviado pelo meu amigo C. S., a quem agradeço.
Segue:

Aquele que, ao longo do dia, é activo como uma abelha,
forte como um touro,
trabalha que nem um cavalo
e que, ao fim da tarde, se sente cansado que nem um cão,
deveria consultar um veterinário porque é bem possível que seja burro...

sexta-feira, 20 de abril de 2018

Aquisições recentes


Ando em maré de folhetos, porque eles têm aparecido em variedade e quantidade: entremezes, sermões, éclogas setecentistas, epicédios... Dum último lote, que triei, eles vinham muito manchados, mas com boas margens para encadernar. Escolhi uma Instrucção Pastoral do Bispo de Beja, Frei Manuel do Cenáculo (1724-1814), iluminista e mecenas, que escrevia muito bem, em português de lei. O opúsculo, de 22 páginas de papel encorpado, foi editado em 1792, para celebrar o futuro nascimento da infanta Maria Teresa de Bragança (1793-1874), primeira filha de D. João VI e de Carlota Joaquina. As últimas páginas do folheto intitulavam-se Preces na Expectação do Parto e incluiam orações orignais, para serem rezadas.



Do segundo folheto, de 8 páginas, pouco há a dizer. Não conheço o seu autor, Jacome Tenorio Francofin de Assis, que se intitulava Mestre em Artes, e se propunha, em filosofia barata, argumentar e elogiar as virtudes maiores dos portugueses da sua época, destacando o Juizo, como essencial nos homens, e a Formosura, imprescindível na mulher. O que me fez lembrar um conhecido dístico inicial, de um poema de Vinicius: As muito feias que me perdoem/ Mas beleza é fundamental... Politicamente incorrecto, nos nossos dias, há que dizê-lo...
O prefácio é, no entanto, curioso. Ainda com ressaibos barrocos e algo chocarreiro, no estilo:



Este último folheto foi impresso em 1763, na tipografia de Ignacio Nogueira Xisto (Lisboa). E houve, recentemente, um exemplar igual vendido no Brasil (Levy Leiloeiro), considerado "raro", que foi arrematado por R$ 210.
Não posso dizer que tenham sido caros, os dois folhetos aqui apresentados. Muito embora estejam ambos muito manchados de humidade.


3 motes para uma causa


Duas transcrições repescadas de há dias:

1.
Este mundo (editorial) definhou. Coisa que Saramago previu, no seu pessimismo ontológico, a propósito da morte do romance. Definhou sobretudo por duas razões, uma paroquial e outra cosmopolita. A paroquial é simples. Os editores começaram a publicar o sabor do mês, a jovem promessa, e os críticos a considerar génio todo o autor ignoto que não lhes ameaçasse a sapiência ou preponderância. O mundo literário povoou-se de nulidades que criaram a sua legião crítica.
Clara Ferreira Alves, in A Seita (Expresso, 7.4.2018).

2.
Estava portanto arrumada, por insuficiente, a hipótese etária, quando me recordo - maldita memória! - de um autor de nome minúsculo que confessou enervá-lo Herberto Helder; "por isso não está neste livro".  E porque o enerva Herberto Helder, a ponto de eliminar do tal livro um texto em que o nome deste aparecia? O motivo veio nos jornais: "...Herberto Helder não era acolhedor. Cheguei a falar com ele por telefone umas duas vezes e até lhe bati à porta - teria uns 26 anos -, e falámos pelo interfone. Não abriu a porta nem me quis receber".
Ana Cristina Leonardo, in Primeiro foram as Padarias, depois foram as Livrarias (Expresso, 7.4.2018).

E, já agora, deixem-me meter a minha colherada!

3. Reparem-me nestes dois "tesourinhos deprimentes" que foram editados, tendo como títulos:

- 25 Gramas de Felicidade,
- O cancro não gosta de beijinhos,  

por duas editoras(?) portuguesas, provavelmente ronceiras e muito mal amanhadas. Mais uma vez, por caridade, evito referir o nome dos autores de tais obras salvíficas.


Querem mais títulos?

quinta-feira, 19 de abril de 2018

Félix Godefroid (1818-1897)

Na coerente sequência temática do Turismo, por indirecta associação, lembremos o belga Félix Godefroid e o seu Carnaval de Veneza, muito bem interpretado por Catrin Finch.
Quanto à bela cidade italiana do Adriático, bem mais martirizada de turistas de calção, do que Lisboa, já só conta com 50.000 naturais residentes. O resto são turistas estrangeiros que lá passam, em média, uma semana por ano, em casas que foram comprando, a preços proibitivos para o veneziano comum.

Até já nos fazem publicidade, à borla...


..., como se não bastassem os que nos chegam, quais aves de arribação, tocaiados pelas agências de viagens chungas, de todo o mundo. Hoje, estão acostados 2 grandes paquetes, no Tejo. Amanhã, chegam mais 4, um dos quais, paquidérmico, com capacidade para 3.500 turistas de calções e bonés.
Em subtítulo, Le Monde alicia: Fiscalidade ligeira, qualidade de vida, efervescência lusitana. De há dois anos a esta parte, o número de franceses multiplica-se...
Tal como as rendas e os preços das casas, aliás.

quarta-feira, 18 de abril de 2018

Blogues e Comentários, algumas observações polémicas ou politicamente incorrectas


Há palavras que são, inexoravelmente, finais e fatais num diálogo. Comentários a postes que barram a possibilidade de quaisquer acrescentos posteriores, de relevância útil. Pela inteligência dessa observação, definitiva, mas também, às vezes, pela estultícia despropositada do comentário desencontrado. Neste último caso, uma espécie de tiro ao lado, ao poste a que são dedicados. Que não tem em conta a questão essencial da postagem,  talvez por dispersão do raciocínio da visita, ou por que ela se concentra em minudências secundárias, que apenas fazem parte da moldura envolvente do assunto que se quis abordar. Também a ironia, de que se usou, pode tornar-se numa floresta de enganos, para o visitante distraido ou desprevenido. Há também outras origens para estes despropósitos.
Porque há muita gente que gosta de se ouvir, em vez de querer, honestamente, dialogar.
Frequento, com alguma regularidade, um Blogue de que não sou seguidor oficial. É feito por uma figura pública conhecida, que também frequenta jornais e canais televisivos, como cronista bissexto e comentador encartado de questões políticas. A menos que os postes que publica sejam de natureza reflexiva, as suas postagens, sobretudo de ordem política, concitam inúmeros comentários, maioritariamente, reaccionários, alarves e, algumas vezes, a rondar o insultuoso. Acresce o facto de serem anónimos, quase sempre. E de serem, como comentários, meros tiros ao lado, de baixo mau gosto... Mas também por lá existe muito comentador entusiástico e redundante, que aplaude sempre, seja o que for, em pura pose de subserviência activa e acrítica.
Por outro lado, o administrador desse Blogue, numa magnânima postura democrática (?) tudo permite e publica. Talvez para seu próprio gaúdio circense, numa pose altaneira de manipulador de marionetas. Não deixo, no entanto, de pensar que esse Blogue fica absolutamente diminuido em qualidade, por essas rémoras parasitas, que lhe sujam o dorso... Mas o Diplomata é que sabe, as linhas com que se cose, em sua casa.

George Steiner : a teoria da omissão

O silêncio, a dúvida e a procura também podem ser um sinal de sabedoria.

terça-feira, 17 de abril de 2018

Glosa 12


Diz, quem sabe, que as árvores fixam a terra e consolidam os terrenos.
Os livros dão vida e eternizam a língua, dando-lhe a existência material que a oralidade não consegue, inteiramente. Daí a importância de Chaucer ou de Fernão Lopes.
Só depois poderemos amar e respeitar a sua pureza, perservando-a, ou, volúveis, a podemos abastardar, enxameando-a de ervas daninhas, estranhas e alheias.

segunda-feira, 16 de abril de 2018

Pinacoteca Pessoal 134


Não será um inovador, este triestino que retratou, fielmente, grande número de italianos célebres, sobretudo figuras importantes da Música do seu tempo. Arturo Rietti (1863-1943) fixou nas suas telas os rostos de Donizetti, Puccini e Toscanini, entre outros. Bem como a alta burguesia italiana da época.
Se nos seus quadros o figurativo predomina, o vago e o abstracto apenas aflora o fundo das telas, de forma a não desfigurar, excessivamente, a identificação e a expressão humana dos seus modelos.


Admirador de Degas, Rietti, a partir da ascensão de Mussolini, destacou-se pela sua posição anti-fascista, que o veio a prejudicar, profissionalmente.

A fechar este poste, não quero deixar de reproduzir um dos seus retratos mais bem conseguidos, na minha opinião. Que é o do maestro Arturo Toscanini, pertecente ao museu do Teatro Scala, e que terá sido executado por volta de 1906.


domingo, 15 de abril de 2018

Osmose 92


Ando à volta de um manuscrito de António Diniz da Cruz e Silva (1731-1799), que adquiri no ano passado. Não será um autógrafo, mas é com certeza um documento do século XVIII. O meu zelo e cuidado vai todo no sentido de ser exacto e essencial, no poste que fizer e, por isso, não será para amanhã que ele irá ser publicado no Arpose. Por outro lado, o Poeta-juiz é dos poucos vates portugueses de minha estimação fiel, há muito tempo. Raro eu descia as Escadinhas do Duque (Lisboa), sem me lembrar dele, que lá morou, segundo nos informa Júlio Castilho. Depois, sempre considerei que é um poeta português subavaliadíssimo. Tem, por exemplo, umas Metamorfoses, escritas no Brasil, muito interessantes, para além de 4 ou 5 sonetos, dos muitos que fez, que vale a pena ler. Da ignorância sobre a sua obra, basta falar de alguns poemas que António José Saraiva, descuidadosamente, atribuiu a Garção, na edição dos Clássicos Sá da Costa...
É um poste, se vier a sair, que - prevejo - dificilmente terá comentários de visitantes do Blogue. A inter-acção, entre nós, é o que é. Mas isso, pouco me preocupa. Interessa-me sobretudo pôr em ordem algumas ideias que tenho sobre Elpino Nonacriense, o grande dinamizador da Arcádia Lusitana. E que, na sua vertente de magistrado, no Brasil, teve de julgar alguns amigos, também poetas, implicados na Inconfidência Mineira. Importa-me, também, tentar perceber melhor o Homem, para além do poeta, que estimo.

sábado, 14 de abril de 2018

Mercearias Finas 129


De caça, à mesa, não me posso inteiramente queixar. Tenro em idade, pelo Outono, apareciam lá em casa, de ofertas de caçadores amigos, tordos, pombos bravos, perdizes, e, de exemplares terrestres, mas também ligeiros, vinham à mesa, lebres e coelhos silvestres, de fino sabor. Tive a minha conta.
Parcimonioso, embora, o almoço de hoje compôs-se de um afinado ragoût de veado com cantarelos, acompanhado por massas frescas e um Dão tinto Santo António (Touriga Nacional, Tinta Roriz e Alfrocheiro) de 2014, que se portou competente para a sua responsabilidade gastronómica.
Ao vivo, em Mafra e na sua Tapada, me fartei de ver veados à solta, enquanto eu andava aperreado na minha aprendizagem militar, pouco antes de Salazar ter caido da cadeira. Mas aos ditos bichos, só os provei, em bifes, por volta de 85, vindos de Massamá, de uma quinta pioneira em criação de caça que, hoje, se calhar, chamariam startup, para ganhar estatuto...
O javali veio ter ao meu currículo gustativo depois do 25 de Abril, numa ida propositado a um restaurante simpático dos subúrbios das Caldas da Rainha. Não desgostei, mas também não fiquei avezado, nem cliente. Já nos anos 90, chegaram os faisões, as galinholas e as avestruzes que, uma vez provados, posso dispensar tranquilamente e sem sacrifício.
Fiel, fiel, mantenho-me às perdizes, que o Sr. Pereira, exímio caçador lá entregava em casa e que a Maria, profissional de gabarito, preparava com afecto extremoso. Ave especiosa, se selvagem, que o Abade de Jazente  (1719-1789) celebrou. Em soneto, e para sempre.
Que aqui deixo, pelo seu tom bem humorado:

Eu bem as vi, mas foi, Rocha erudito,
arrojar tão de chofre d'entre o mato,
que o caçador um pouco estupefacto,
em lugar de atirar-lhes, deu um grito.

Passaram-se depois a tal distrito,
d'onde apenas trepar podera um gato;
sem falar no desconto de um regato,
que resiste inda aos saltos de um cabrito.

N'isto chegou a noite; e ao outro dia,
ou porque o cão levava maus narizes,
ou porque alguma velha nos benzia,

corremos sem topá-las mil paises.
Bem sei que isto ao primor me não desvia,
mas esta é toda a história das perdizes.

sexta-feira, 13 de abril de 2018

Uma canção tradicional irlandesa

Da canção Siúil a Rún não se conhece a sua data de origem, mas é referida por Joyce no seu Ulysses.
O vídeo foi filmado na Torre Museu de James Joyce, em Dublim (Sandycove). Nela se guardam alguns pertences pessoais do escritor irlandês, que lá passou uma semana, em 1904. Nomeadamente, a sua guitarra, que John Feeley utiliza na execução desta canção tradicional.

quinta-feira, 12 de abril de 2018

A propósito de uma gravura de Dürer


Acédia, melancolia, spleen, tédio - diferentes palavras para expressar um quase igual sentimento. O rigor da caracterização pode, no entanto, identificar melhor a riqueza do sujeito que a utiliza, pela variante que preferiu. Baudelaire abusou do spleen, Cioran optou por acédia. Albrecht Dürer (1471-1528), talvez mais complexo, criou, em gravura, a imagem que quase todos nós conhecemos, em 1514. E, com simplicidade clássica, deu-lhe o nome de melancolia.



Das gravuras do grande pintor alemão, é talvez a mais difícil de descriptar, pelos inúmeros motivos circundantes que envolvem o anjo melancólico, à direita. Desde os símbolos geométricos, ao relógio, ao sino inesperado, ao vago Sol distante, com arco-íris circundante. O quadrado mágico de 16 números é, porém, o elemento que mais tinta fez correr, porque somados na horizontal ou na vertical, bem como em diagonal, os algarismos somam sempre 34. Na última linha, ao centro, a data de execução da gravura: 1514.



De tal modo famoso este seu trabalho, acabou por inspirar vários artistas vindouros, que, apesar de tudo, não atingiram a perfeição de Dürer. Mas Cranach, o Velho, no quadro homónimo, andou lá  por perto.

Portugueses, segundo Antonio Tabucchi (1943-2012)


Há nos portugueses, um veio pícaro forte, um escárnio sempre presente, uma maldadezinha, um tom mais baixo, rabelaisiano.

Antonio Tabucchi, em entrevista (2000) a Maria João Seixas.

quarta-feira, 11 de abril de 2018

Memória 121


O TLS atingiu, com a sua penúltima publicação (30/3/2018), o surpreendente número de 6.000. Iniciando a sua vida em 17 de Janeiro de 1902, será, porventura, em todo o mundo, um dos mais antigo jornais literários, em actividade permanente. E, no entretanto, foi consolidando a sua excelência, quer em isenção, quer em qualidade. Para já não falar dos seus inúmeros colaboradores, altamente especializados.



Para celebração da efeméride, foi editado um número especial que traz, na capa e contracapa, a imagem (desenho) de alguns dos mais importantes escritores, artistas e criadores do século XX, de todo o mundo. São 28 personalidades de um cânone consensual e que vão de Yourcenar a Neruda, de Ted Hughes a Orwell, de T. S. Eliot e Auden a Scorsese.
Destaco, como curiosidade, o facto de o primeiro retratado ( na capa) ser Camus (algarismo 6, do número seis mil, em imagem). Não consigo imaginar, uma revista francesa da especialidade, celebrando uma efeméride semelhante, que tivesse delicadeza semelhante com um autor anglo-saxónico ou estrangeiro... É também isto que comprova a abrangência e o não-chauvinisme deste jornal inglês.
Como bónus, este número redondo do TLS, integra a edição fac-similada da sua edição inicial.

Tchaikovsky / Pletnev

terça-feira, 10 de abril de 2018

Recomendado : setenta e três


Saido recentemente (Fevereiro de 2018), este Instantâneos, de Claudio Magris (Trieste, 1939), composto de breves apontamentos sobre diversos assuntos, escritos entre 1999 e 2016, está a dar-me grande prazer de leitura.
Os temas serão ligeiros mas, por vezes, desencadeam reflexões originais e irónicas no escritor italiano, e no leitor. Da desaparição dos úteis urinóis da via pública (Mijar contra o vento e contra legem) até a um livro de receitas patrocinado por Estaline (A ementa da Revolução)*, são relatos narrados numa escrita elegante e sucinta, sendo o livrinho (163 páginas)  um manancial de boa disposição e prazer.
Que, naturalmente, eu recomendo.

* Há dias, num jornal (Público? Expresso?), li um artigo que, de algum modo, parafraseava esta crónica de Claudio Magris. Só que nem sequer citava o nome do escritor italiano... Assim vai o jornalismo nacional.

segunda-feira, 9 de abril de 2018

Citações CCCXXXVIII


Um ponto de exclamação é como se nos ríssemos da nossa própria anedota.

F. Scott Fitzgerald (1896-1940)

Por assim dizer


Há quem se intimide com pequenas coisas, quem faça cerimónia em dizer não. Ateus há, que nunca entraram numa igreja, da mesma forma que os analfabetos, em princípio, nunca tiveram a experiência de franquear as portas de uma livraria - o que é lógico, a menos que se trate de alguma senhora de limpeza, iletrada, que lá vá exercer a sua higiénica função.
Mas também existem pessoas que, perante objectos e factos, observam um prudente respeito, quase sagrado, e nunca se perguntem da sua qualidade, da justificação da sua criação, do valor estético (ou não) inerente. Como, inexplicavelmente, há seres humanos que, perante uma música que foi gravada, um livro que foi publicado, uma estátua, um quadro, lhes atribuam o valor incontestável de tabu. Uma indiscutível autoridade. Só por existirem, no concreto da sua realidade.
Creio ser este, para além do hipócrita respeitinho português, um dos factores responsáveis pelo atraso de mentalidades e pela falta de sentido crítico nacional.
Dixit

sábado, 7 de abril de 2018

sexta-feira, 6 de abril de 2018

Divagações 129


Intimamente, creio que ninguém gosta de estar sozinho, embora o provérbio popular sugira uma possibilidade contrária.
Andam nomes nas estantes e nas letras supervalorizados de forma escandalosa, bem como há autores que qualquer conselho editorial criterioso recusaria editar. Mas os livros lá aparecem editados, as entrevistas multiplicam-se com baboseiras incipientes, ditos "para entre família", apelos à simpatia, explicação de lágrimas para despertar a compaixão no leitor, numa exposição patética e infantil, por parte desses escribas que não estão, talvez, preocupados em fazer arte, mas ir vendendo o mais possível...
Tenho os meus ódios de estimação, muito embora grande parte deles não resulte de uma mera embirração caprichosa, mas da constatação do logro de qualidade artística a que os assiste. E a que a falta de sentido crítico nacional e centenário, o compadrio despudorado, o mercenarismo militante, a cegueira racional e a falta de gosto reinante dá guarida, e favorece. Vox clamantis in deserto me sinto, às vezes, ou aquele rapaz atrevido, da fábula, que gritou: o rei vai nu!
Por uma vez, e hoje, no entanto, senti a beatificação tranquila da razão, embora tardia. Senti que não estava sozinho, mas acompanhado. E com argumentos sólidos, através de uma recensão, na ípsilon.

Cuidem-se!


E não digam que eu não avisei...
(Como diria o nosso inefável e penúltimo PR.)

Pequena história (50)


Em 1939, o escritor norte-americano Raymond Chandler (1888-1959) publicou o seu romance negro The Big Sleep que, em português, veio a ter o título de: "À Beira do Abismo". O realizador Howard Hawks resolveu adaptá-lo ao cinema, tendo concluido o filme em 1946. A película não teve boa crítica e, na altura, nem foi grande sucesso de bilheteira. Apesar do elenco distinto (Humphrey Bogart e Lauren Bacall) de bons actores e da importante colaboração de William Faulkner na adptação ao cinema do livro de Chandler. No entanto, com o tempo, a película ganhou notoriedade consistente e é, hoje, considerado um dos cem melhores filmes norte-americanos.
Diz-se que o enredo original (do livro) era um pouco atabalhoado e pouco claro, nalgumas cenas. De tal modo que Faulkner e Hawks, assoberbados com dúvidas, tiveram que perguntar a Chandler, entre outras coisas, se uma das personagens secundárias era assassinada ou se suicidava. Ao que o escritor teria respondido, confuso: Dammit I did'nt know either!*

* : Raios, nem eu sei.

quinta-feira, 5 de abril de 2018

Diferentes perspectivas de Justiça


O Supremo Tribunal do Schleswig-Holstein decidiu pela libertação do líder catalão, sob fiança, negando assim provimento à sua extradição para Espanha.
Se me parecem fortemente frouxas, para não dizer inexistentes, as estratégias e tácticas de muitos políticos de segunda e terceira ordem (May, Puigdemont, Martin Schulz...) em acções recentes, também julgo abusivas muitas das decisões produzidas, ultimamente, pelas justiças (com letra pequena, claro) brasileira e espanhola, por exemplo, que indiciam uma promiscuidade com as forças de poder, no terreno.
Louve-se, por isso, a isenção dos juízes do Supremo Tribunal da land do Schleswig-Holstein (Alemanha).

N. Abelardo / L. Medel

Dizem-no influenciado por Chopin. Realmente, este Nocturno do compositor filipino Nicanor Abelardo (1893-1934) faz lembrar os sons do genial Polaco, que se fixou na França.
Aqui fica o Nocturno para acompanhar o avançar desta noite de Abril.

quarta-feira, 4 de abril de 2018

Uma fotografia, de vez em quando... (105)


Não tenho nada contra a fotografia a cores, mas, do ponto de vista artístico, talvez por mero capricho pessoal e subjectivo, prefiro-a a preto e branco. No seu despojamento desabriga-se assim, em grande parte, dos eventuais rodriguinhos que perturbam, muitas vezes, a arte mais autêntica, quando a cor a vem decorar e, muitas vezes, ornamentar, nem sempre da melhor forma estética.
Daí, nesta temática específica do Blogue, eu privilegiar os artífices do preto e branco. Mas abro excepções, como agora, referindo uma exposição da Hayward Gallery (Londres), que decorre até 22 de Abril, do talentoso fotógrafo alemão Andreas Gursky (1955) e que inclui 68 fotografias.



Seleccionei apenas instantâneos de paisagens, em que o ser humano não aparece. Mas Gursky não os exclui dos seus trabalhos, embora os retrate, normalmente, em colectivo, parecendo evitar a pose individual e muito próxima. E privilegiando aquilo que um crítico denominou, à falta de melhor caracterização, de "autocratismo abstracto".
Artista exigente, com preocupações políticas de defesa do ambiente e grande desconfiança em relação à globalização, a sua obra é reconhecida por um estilo de grande rigor e exigência, onde talvez se possa inserir o facto de, em média, produzir apenas oito fotografias por ano.
Andreas Gursky é professor na Kunstakademie de Düsseldorf.



À guisa de localização, posso adiantar que a primeira fotografia se intitula Rhein II, a segunda foi captada na Inglaterra, e a última  tirada no Bahrain.

terça-feira, 3 de abril de 2018